O jeito japonês de contar histórias

As pessoas costumam associar o mangá (quadrinho japonês) a figuras de olhos grandes, cabelos espetados e coloridos, robôs, samurais e monstros.

Na verdade, essa ideia não faz jus ao alcance e ao potencial desse gênero de HQs. Tem a ver apenas com uma escola de artes visuais bastante popular entre quem consome e faz mangá. Sem dúvida, os elementos mencionados acima são estereótipos visuais e padrões estéticos, que realmente fazem parte da maneira japonesa de fazer quadrinhos, mas estão longe de ser o que a melhor traduz.
Há muito mais. Pode-se dizer que há um componente sutil e que escapa à avaliação superficial de um gibi japonês; um elemento arduamente pesquisado pelo pioneiro do moderno mangá, Osamu Tezuka, e aperfeiçoado ao longo dos anos por artistas talentosos. Estou falando da narrativa, aquilo que liga um quadrinho ao outro e dá ao leitor o entendimento da história no ritmo e no tempo pretendido pelo autor.

A importância da narrativa, seja ela japonesa ou não, é algo que somente domina quem se preocupa em contar uma história e não apenas em exibir ilustrações. A maioria dos quadrinhistas de fora do Japão (como brasileiros e americanos), que dizem produzir mangá ou seguir suas influências, o faz sem a noção da narrativa peculiar do gênero. Via de regra, bolam suas histórias motivados pela admiração a animes (os desenhos animados japoneses), sem jamais terem sido leitores assíduos de quadrinhos. Usam elementos visuais –olhos grandes e cabelos espetados – e símbolos gráficos, como as dinâmicas linhas de ação traçadas atrás de um personagem em movimento. Nada disso é mangá. Ou melhor: apenas isso não é mangá.

O narrador e o rítmo

As diferenças são inúmeras, a começar por como a história é apresentada pelo autor. Por exemplo, nos quadrinhos japoneses, o narrador é um recurso raramente empregado, sendo a narrativa mais visual do que no ocidente. Os diálogos são diretos e o ritmo flui com suavidade. É uma abordagem mais cinematográfica, que geralmente leva a um desenvolvimento de cena mais lento. Vale lembrar que, no Japão, são comuns histórias com cerca de vinte páginas publicadas em grandes almanaques semanais. Isto resulta num bom espaço a ser explorado. Já no ocidente, episódios mensais são a regra. Com menos espaço, a narrativa ocidental tende a ser mais breve do que no oriente.

A sutil passagem do tempo

No mangá, um nascer do sol abrindo a página, quando a anterior mostrava noite, dá ao leitor a idéia de que amanheceu, sem a necessidade de se escrever "No dia seguinte..." . Outro exemplo, agora com mudança de cenário, é abrir a página com um quadro que mostra o exterior do local onde irá se passar ação seguinte. Tal artifício já basta para situar o leitor no novo cenário. A transição apenas visual de tempo e espaço é uma das principais características do mangá. Sua origem, não resta dúvida, é a linguagem cinematográfica.

O formato e a quantidade de quadrinhos numa página influem na percepção de tempo. Por exemplo: uma cena fica "congelada" por vários instantes se for decomposta em vários quadros, cada um deles mostrando um plano de detalhe sem que haja movimentação. Por sua vez, para situações de combate, o mangá explora vigorosamente a variação de ângulos, bem como o formato dos quadrinhos.

Um grande exemplo de controle do tempo narrativo é Lobo Solitário, de Kazuo Koike e Goseki Kojima. Há momentos em que o ângulo de cena é simples e o desenho transmite tranqüilidade. Em outros, o leitor é tomado por suspense e expectativa. Por fim, há aqueles que se irrompem em situações movimentadas e dinâmicas.

Se um autor lida bem com o tempo, prende mais o leitor, que se divertirá tanto com o conteúdo bem como com a forma com que a história é contada. Tais sutilezas passam longe da maioria dos autores americanos, especialmente os adeptos da linha de desenhos da Image.

A narrativa de mangá, chamada assim para simplificar, é, portanto, um conjunto de técnicas que visa um único objetivo: contar bem uma história.

 

• Extraído e adaptado da publicação Como Desenvolver Roteiro para Mangá (ed Escala)

 

 


fonte: omelete
Alexandre Nagado