Confederação Brasileira de Judô estabelece critérios de desempate na convocação para os Jogos Olímpicos

Apresentação foi feita aos atletas na quinta-feira (5.03), durante período de treinamento no CT do COB, no Rio de Janeiro

No dia 1º de junho, logo após a realização do Masters, em Doha, serão conhecidos os brasileiros que representarão o país no judô dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. Até lá, os atletas ainda correm atrás dos últimos pontos disponíveis no circuito internacional para se firmarem na zona de convocação, entre os 18 melhores de cada categoria. Em algumas delas, contudo, há outros critérios em jogo para a definição do eleito. Em concentração no Centro de Treinamento do Comitê Olímpico do Brasil (COB), no Rio de Janeiro, os atletas conheceram na última quinta-feira (05.03) como será o desempate no caso de dois ou mais judocas estarem aptos para a vaga.

Treino coletivo da seleção de Judô no CT do COB, no Rio. Foto: Ana Claudia Felizola/rededoesporte.gov.br

"Se a distância for maior do que seis posições, vai o que está na frente. Quando a diferença for menor do que seis, a gente analisa. Se um for cabeça de chave, prevalece o cabeça de chave. Se os dois estiverem como cabeça de chave, vamos considerar uma série de critérios, e o último é a experiência do atleta”
Ney Wilson, gestor de Alto Rendimento da Confederação Brasileira de Judô (CBJ)
“São vários critérios. Por exemplo, se a distância for maior do que seis posições, vai o que está na frente”, explica o gestor de Alto Rendimento da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), Ney Wilson. “Quando a diferença for menor do que seis, a gente analisa. Se um for cabeça de chave, ou seja, estiver entre os oito melhores, e o outro não, prevalece o cabeça de chave porque isso é uma vantagem na Olimpíada. Se os dois estiverem como cabeça de chave, vamos considerar uma série de critérios, e o último é a experiência do atleta”, continua.

O caso de empate que talvez seja o mais emblemático é o do pesado masculino. A exemplo do que já havia ocorrido no período de classificação para o Rio 2016, Rafael Silva e David Moura correm lado a lado na disputa. Na última atualização do ranking da Federação Internacional de Judô (FIJ), em 2 de março, Baby aparece em sétimo lugar, enquanto David é o oitavo. Situação similar à do pesado feminino, em que Maria Suelen Altheman é a quarta da listagem, com Beatriz Souza em sétimo.

“Entende-se que quem está em cima na tabela é candidato à medalha. Quando essa mesma situação ocorre da nona à 18ª posição, a gente inverte”, detalhe Ney Wilson. “A gente entende que ali não é, entre aspas, o foco de ganhar medalha, então a gente prefere levar o atleta mais jovem, e não o mais experiente, porque ele pode estar em outra Olimpíada, como fizemos com a Sarah, a Mayra, a Rafaela, dando oportunidade para o mais jovem”, esclarece o gestor.

Nessa situação, duelam pela vaga, por exemplo, Rafael Buzacarini (16º) e Leonardo Gonçalves (20º), na categoria -100kg; Gabriela Chibana (25º) e Nathália Brígida (30º), na -48kg; e Ketleyn Quadros (16º) e Alexia Castilhos (18º), na -63kg. “Eu acredito em mim e que dê para passar. A gente praticamente não luta juntas, é como se fossem categorias separadas. Ela está buscando o dela, e eu estou busco o meu. Estou tentando não me importar tanto com pontos ou com ela, mas em fazer o meu, porque aí sei que consigo buscar bons resultados”, comenta Alexia.


Alexia e a medalhista olímpica Ketleyn Quadros competem pela vaga em Tóquio na categoria -63kg. Foto: Abelardo Mendes Jr./ rededoesporte.gov.br

Pressão

Aos 25 anos, a judoca gaúcha percebeu, contudo, que precisava de ajuda extra para lidar com a reta final de definição olímpica. “Eu sou tranquila, mas estava conversando com meus pais e meu irmão. Essa pressão que estou colocando em mim eu nunca senti antes. É uma coisa nova, estou tentando lidar comigo mesma. Não é ninguém colocando pressão em mim. Sou eu querendo ir bem, buscando resultado. Estou até procurando ajuda de um psicólogo porque acho que posso mais do que estou mostrando. Acho que ainda estou um pouco travada nas lutas, mas com a ajuda do psicólogo acho que vai fluir bem até Doha”, acredita.

"Essa pressão que estou colocando em mim eu nunca senti antes. É uma coisa nova, estou tentando lidar. Não é ninguém colocando pressão em mim. Sou eu querendo ir bem, buscando resultado"
Alexia Castilhos
No Grand Prix de Tel Aviv, em janeiro, Alexia chegou à disputa pelo bronze, mas foi superada por Renata Zanchova, da República Tcheca, e terminou em quinto. Já no Grand Slam de Dusseldorf, no mês passado, perdeu na estreia para a norte-americana Alisha Galles. Foi quando percebeu que algo não ia tão bem. “Eu sei que posso mais. Fui bem em Tel Aviv, mas em Dusseldorf já fui mal, vi que tem alguma coisa errada”, conta.

Para arcar com os custos da preparação, Alexia recebe a Bolsa Pódio, categoria mais alta do programa Bolsa Atleta, do Ministério da Cidadania. “Isso me ajuda a ficar tranquila porque sei que, se precisar aderir a uma competição, pagar, tenho esse recurso. Se precisar viajar para um treinamento ou fazer uma fisioterapia, vou conseguir, não preciso ficar correndo atrás, pedindo emprestado, fazendo rifa ou essas coisas que a gente tinha que fazer antigamente”, relembra. “Minha mãe fez muita rifa para viagens, competições e até para sobrevivência. Esse recurso é uma tranquilidade psicológica boa para buscar o nosso sonho”, define a judoca.

Outra beneficiada é Larissa Pimenta (-52kg), hoje 13ª colocada no ranking olímpico. “Agora estamos em um momento delicado, a gente fica mais sensível. Tem que prestar mais atenção nos treinos, na alimentação. Acho que agora é o processo mais importante que a gente tem até os Jogos. Além disso, tem bastante competição, tem que manter o ranking, ganhar medalha para o Brasil, representar bem a categoria”, enumera.

Na lista da FIJ, as concorrentes de Larissa são Eleudis Valentim (29ª) e Sarah Menezes (33ª), campeã olímpica em Londres 2012. “Eu procuro não pensar muito. As pessoas confiam bastante, dizendo ‘você vai, você vai’. Eu não gosto de ficar falando sobre isso, acho que o importante é construir para chegar lá. Tem muita competição ainda antes dos Jogos, e sem elas e sem os resultados, não estou lá. Então tenho que pensar primeiro nessas competições e depois nos Jogos Olímpicos”, pondera.


Uma briga boa é na categoria dos pesados feminino: Maria Suelen (E) é a quarta do ranking mundial, e Beatriz Souza (D) aparece em sétimo. Foto: Roberto Castro/ rededoesporte.gov.br

Retomada após lesão

Lidar com o lado psicológico até a definição da vaga também é um dos desafios de Nathália Brígida. Depois de passar por uma cirurgia na coluna no ano passado e de ficar de fora dos Jogos Pan-Americanos e do Mundial, a judoca de 26 anos já disputou três competições na temporada, retomando, aos poucos, o ritmo e a confiança. “Agora estou bem, 100% recuperada. Essa volta é um pouco difícil, mas agora é questão de continuar competindo, treinando forte que os resultados vão ser consequência”, afirma.

“Acho que essa parte de ansiedade de competir já passou, já estou mais adaptada e acho que daqui para a frente vai ser melhor”, deseja. “A gente se dedica o tempo todo, treinando, para estar em um dia disputando a nossa vida. Em um dia a gente vai decidir se vai realizar o nosso sonho ou não. Ter passado por lesão e cirurgia, acho que isso só me fortaleceu, me deu mais vontade de voltar e buscar esse sonho. Então estou bem positiva, confiante e com muita vontade”, acrescenta Nathália.

Coronavírus

“Tem bastante competição ainda até o fechamento do ranking para a classificação olímpica. Dá para ainda chegar num top 10, tendo bons resultados”, calcula a judoca. Nessa corrida, porém, Nathália Brígida encontrou um obstáculo quando embarcava, há três dias, para a disputa do Grand Prix de Rabat, no Marrocos, cancelado de última hora devido ao surto de coronavírus. “Meu pensamento é no que posso controlar, aqui dentro do tatame. A gente continua se preparando”, afirma.

“Eu estava almoçando e o pessoal embarcava às 16h30. Recebi uma mensagem da FIJ dizendo que o evento estava cancelado. Peguei atletas que já estavam em Guarulhos e no Galeão para embarcar, porque vinham de outros estados. A gente já tinha um atleta em Rabat, o João Pedro (81kg). Foi uma complicação”, conta Ney Wilson.

Segundo ele, até segunda ordem, contudo, todos os demais eventos do calendário estão mantidos. “O posicionamento da FIJ é que ela não vai cancelar evento algum. Quem cancela são os anfitriões, o país que realiza, e aí a FIJ acata. Até este momento Ecaterimburgo está confirmado”, aponta. A disputa na Rússia está marcada para os próximos dias 13 a 15 de março.

Gestor de Alto Rendimento da CBJ, Ney Wilson fica com um olho na programação e outro nos cancelamentos de torneio pelo coronavírus. Foto: Roberto Castro/ rededoesporte.gov.br

Equipe completa

Confiando na manutenção da data dos Jogos Olímpicos, a comissão técnica da CBJ também acredita que o Brasil conseguirá levar a equipe completa para a competição. No momento, a única categoria que dependeria da cota Pan-Americana para a classificação, por não estar com um atleta entre os 18 melhores, é a leve (-73kg) masculina. O atleta mais bem colocado atualmente é Eduardo Barbosa, em 39º.

“É um ótimo momento para a gente fazer correções das partes técnica, tática e física. Estamos com toda a equipe multidisciplinar aqui. É um momento rico. Este segundo bimestre define a equipe"
Ney Wilson
Outra situação delicada é a da categoria leve (-57kg) feminina, em que a campeã olímpica Rafaela Silva tenta se defender da acusação de doping. Apesar de ainda confiar na participação de Rafaela no Japão, a CBJ elabora estratégias para tentar preparar outra representante no peso. No momento, a mais bem colocada é Ketelyn Nascimento, em 45º lugar.

“A gente trabalha com duas possibilidades. A gente tem a chance de subir com o -73kg e colocá-lo dentro da zona de ranqueamento olímpico, e resgatar a categoria -57kg pela cota Pan-Americana. Assim teríamos todos os atletas na Olimpíada”, explica Ney Wilson. “A outra possibilidade é investir no -57kg e fazer subir. Estamos fazendo as duas coisas, trabalhando forte com o -73kg e com o -57kg. Se uma das duas entrar na zona de ranqueamento olímpico, a outra é resgatada. E, se as duas entrarem, melhor ainda porque nem precisamos contar com a cota”, completa o gestor.

O período de treinamento no Rio segue até o próximo domingo (8.03), com o objetivo de preparar os atletas para os próximos compromissos do calendário, corrigindo eventuais falhas cometidas ao longo dos eventos do primeiro bimestre de 2020. “É um ótimo momento para a gente fazer as correções das partes técnica, tática e física. Estamos com toda a equipe multidisciplinar aqui. É um momento rico para toda a comissão técnica observar, orientar, identificar. Este segundo bimestre define a equipe, então os ajustes finos precisam ser feitos agora”, aponta.

Depois do Grand Slam da Rússia, a comissão técnica irá definir a equipe que disputará o Pan-Americano de Montreal, no Canadá, em abril. “Esse é um ponto importante por ser uma competição teoricamente menos difícil. Vamos focar a preparação para ela. No dia 16 definimos quem são os atletas e quais categorias vamos dobrar porque podemos inscrever até nove por gênero. Depois faremos um grande treinamento internacional, que está tendo uma procura maior agora porque o Japão cancelou os treinos, e vários países que iriam para lá estão tentando vir para o Brasil”, comenta.

O treinamento internacional será entre 24 de março e 2 de abril, em Pindamonhangaba. Já estão confirmados Suécia, Portugal, Cuba, Argentina, Chile e Bélgica. Última competição a contar pontos para o ranking olímpico, o Masters de Doha será entre 28 e 30 de maio.

 

 

 

 


fon te:
Ana Cláudia Felizola, do Rio de Janeiro (RJ) – rededoesporte.gov.br

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