Ginástica aposta em Copas do Mundo e no Pan para ampliar delegação olímpica

Até o momento, o Brasil está garantido com Flávia Saraiva e com quatro atletas na equipe masculina, mas o objetivo da comissão técnica é obter mais vagas nos próximos meses

Durante o Mundial de Stuttgart, na Alemanha, em outubro do ano passado, o Brasil teve que lidar com sentimentos mistos. Por um lado, amargou a não classificação da equipe feminina para os Jogos Olímpicos de Tóquio e viu o elenco masculino de fora da final da competição. Por outro, comemorou a vaga para a seleção masculina, com quatro integrantes a serem nomeados pela comissão técnica, e o posto individual de Flávia Saraiva. Desde então, o objetivo é preparar os atletas para os próximos eventos do calendário que podem assegurar novos passaportes para o Japão.

Entre 12 e 15 de março, Arthur Zanetti, Francisco Barretto Júnior, Rebeca Andrade, Flávia Saraiva e Thaís Fidélis competem na Copa do Mundo de Baku, no Azerbaijão. Em seguida, de 18 a 21 de março, os ginastas disputam a etapa de Doha, no Catar. Os dois eventos serão importantes principalmente para o feminino, pois, já que o Brasil não tem a vaga por equipes, está apto a tentar classificação individual por aparelhos pelo ranking da Copa do Mundo. Nesse quesito, são considerados os três melhores resultados de cada atleta nas oito etapas válidas, e o melhor colocado no ranking de cada aparelho consegue a classificação.

Rebeca Andrade é aposta da comissão técnica para ampliar a delegação feminina em Tóquio. Foto: Ana Cláudia Felizola/ rededoesporte.gov.br

Retornando às competições após se recuperar de lesão no joelho direito que a tirou dos Jogos Pan-Americanos e do Mundial, Rebeca é a principal aposta na corrida por mais uma vaga olímpica. “Ela está ranqueada na paralela e na trave. Tem chances de se classificar agora”, explica o técnico Francisco Porath Neto. “Ela ainda está em recuperação e, por conta da busca da vaga, hoje só faz esses dois aparelhos. Estamos tentando fazer a melhor recuperação possível em função das muitas cirurgias que ela tem. Ela está respondendo bem e fazendo séries completas. Isso deixa a gente muito feliz e ela também se sente um pouco mais confiante”, aponta.

“Já me recuperei e estou feliz por ter tempo de tentar a vaga para me apresentar na Olimpíada. Para mim é isso que importa: ter esse tempo e correr atrás para estar lá”
Rebeca Andrade, atleta da seleção brasileira de ginástica artística
“Estou muito bem. Já me recuperei e estou fazendo alguns aparelhos que vou apresentar nas próximas competições. Adoro competir e é bom estar de volta”, afirma a ginasta de 20 anos. “Estou feliz por ter tempo de tentar a vaga para me apresentar na Olimpíada, então para mim é isso que importa: ter esse tempo, buscar, correr atrás para que esteja lá”, completa.

Caso não consiga seu lugar em Tóquio por meio das Copas do Mundo, Rebeca terá uma nova chance no Pan-Americano, em maio, nos Estados Unidos. “Nesse Pan já são os quatro aparelhos. Então, ela precisa voltar dessas competições agora e entrar numa progressão para que esteja executando todos os aparelhos em maio”, destaca Francisco.

“O que a gente conta é que a Rebeca esteja no melhor momento no Pan. Como não tivemos outra competição antes, as Copas do Mundo vão ser para ela voltar a sentir o clima de competição. Isso vai ser importante para que, caso a vaga não venha, ela consiga se preparar e estar bem no Pan, já tendo passado essa ansiedade de competir”, calcula o treinador, sem descartar também a possibilidade de ter outra atleta nessa terceira possível vaga.

“Hoje temos a Flávia garantida e mais essas duas vagas. Existem simulações. Se a Rebeca conseguir a vaga nessas duas etapas da Copa do Mundo, a gente vai participar mesmo assim do Pan-Americano, com a equipe mais forte que a gente tiver, e uma dessas atletas terá sua chance de conquistar mais uma vaga, a terceira”, argumenta.

Renovação

O terceiro nome, contudo, não será o da veterana Jade Barbosa. Também lesionada, a atleta de 28 anos segue em recuperação e não deverá ter tempo suficiente para pleitear um posto no Pan. “Acredito que ficaria difícil. A gente teria que acelerar a preparação dela e acredito que não vale a pena nesse momento. Acho que fazer uma boa recuperação agora vai fazer com que ela dê mais frutos na frente do que a gente acelerar”, defende o treinador, sem desconsiderar a presença da ginasta em outros eventos depois de Tóquio. “Ela é uma atleta forte e que se recupera rápido”, define. “Eu ainda acredito que ela vá voltar a fazer ginástica de alto nível”, acrescenta Francisco.

A sequência de lesões nas ginastas e a mudança no modelo de estrutura da seleção foram o que, para o treinador, impediram a renovação da equipe nos últimos anos. “Antes do Rio, tínhamos uma seleção permanente. Essa seleção morava aqui no Rio, todas treinavam juntas, tinham as mesmas condições”, relembra. “Depois que acabou a Olimpíada, a seleção começou a se encontrar esporadicamente, em campings de treinamento, e as atletas que vão se destacando nesse cenário vão cumprindo os calendários da seleção, e elas continuam sendo ainda as mesmas: Jade, Flávia, Rebeca, Lorrane. Essas mais experientes acabaram sendo as que estavam em melhores condições para competir”, explica.

“Claro que lesões acontecem em vários atletas, mas as competições em que a gente foi perdendo uma das peças principais, a peça de reposição ainda estava em evolução. Isso que acabou não gerando no fim do ciclo uma renovação muito forte e acabou afetando”, lamenta.

Atual campeão mundial na barra, Nory trabalha para adicionar graus de dificuldade à sua série para se manter no topo. Foto: Abelardo Mendes Jr./ rededoesporte.gov.br

Foco nos especialistas

É também no Pan que o país espera arrematar uma nova vaga no masculino, colocando um atleta em primeiro ou segundo lugar no individual geral. Segundo o técnico Marcos Goto, apesar de a vaga ser do país, a comissão técnica brasileira decidiu que, caso um atleta consiga o posto, ele será o titular da vaga nos Jogos Olímpicos.

"Se tivermos quatro especialistas entre os dez do mundo, a probabilidade de termos mais atletas numa final olímpica é maior”
Marcos Goto, técnico da seleção brasileira masculina
Como a conquista não pode vir por algum ginasta que tenha disputado o Mundial do ano passado, um dos nomes mais cotados é o do jovem Diogo Soares, de 17 anos, que estreia na categoria adulta. Em 2018, Diogo conquistou duas medalhas nos Jogos Olímpicos da Juventude, em Buenos Aires. No ano passado, subiu ao pódio no Mundial Juvenil.

Uma segunda chance de classificação é por meio da soma de pontos das Copas do Mundo de Individual Geral. Ainda há etapas na Alemanha, na Grã-Bretanha e no Japão, com três vagas em disputa para o país por gênero. Assim, com as quatro vagas já garantidas na equipe, o time masculino pode contar com até seis atletas em Tóquio.

A escolha desses nomes deve seguir uma lógica diferente da que prevaleceu nos Jogos Rio 2016. Em vez de selecionar atletas generalistas para focar na equipe, a ordem é buscar finais e medalhas com os especialistas. “Pela experiência de outras Olimpíadas, hoje não teríamos uma equipe competitiva, e sim atletas especialistas. Então a ideia é levar aqueles que estejam entre os dez primeiros do mundo em cada aparelho. Hoje temos o Nory, atual campeão mundial de barra, e o Zanetti, quinto nas argolas mas dono de duas medalhas olímpicas. Esses dois já têm vaga para a Olimpíada”, garante Marcos Goto. Caio Souza e Francisco Barretto Júnior são os outros nomes que integram a seleção nas principais competições.

“Em 2016 tínhamos cinco ginastas. Para Tóquio, a FIG (Federação Internacional de Ginástica) fez uma modificação e só temos quatro vagas. Optamos por ir com os especialistas. Se tivermos quatro especialistas entre os dez do mundo, a probabilidade de termos mais atletas numa final olímpica é maior”, avalia Goto. A escolha dos demais nomes sairá em junho.

“A preparação está sendo feita da melhor forma possível para a gente chegar nessas competições focados, para realizarmos um bom trabalho”, acredita Caio Souza, ouro no individual geral nos Jogos Pan-Americanos de Lima. “Agora são os últimos detalhes, de lapidar, fazer ajustes, cuidar do físico, da saúde e da cabeça”, comenta Arthur Nory que, além de ser o atual campeão mundial na barra fixa, já tem um bronze olímpico no currículo, no solo dos Jogos Rio 2016.

“No solo, venho trabalhando na dificuldade. Na barra, trabalho a série que fiz no Mundial de 2019, mas também a dificuldade porque hoje, sendo campeão mundial, as pessoas vão olhar mais, estudar mais, ver o que estou fazendo, então é importante aprimorar. Já vi que tem bastante atleta dificultando a série, então a gente vai dificultar também”, avisa. Para isso, a motivação do atleta é diária e traduzida na forma de um pequeno papel, colado no espelho do banheiro. “Está escrito ‘bom dia, campeão olímpico e mundial’. É isso que vejo todos os dias. E tem também a série com as notas que almejo”, conta Nory, rindo.

100% Bolsa Pódio

Arthur Nory, Arthur Zanetti, Caio Souza, Francisco Barreto Júnior, Flávia Saraiva, Rebeca Andrade e Thaís Fidélis são integrantes da categoria Pódio, a mais alta do Bolsa Atleta, programa da Secretaria Especial do Esporte do Ministério da Cidadania. O investimento federal anual nesse grupo é de R$ 912 mil.

A Bolsa Atleta contempla hoje, ao todo, 58 nomes da ginástica artística, sendo 36 homens e 22 mulheres, em um investimento anual previsto de R$ 1.689.600. Além dos sete integrantes da categoria Pódio, há 36 atletas na Nacional, 12 na Internacional e três na categoria Olímpica.

 

 

 

 


fonte: Ana Cláudia Felizola – rededoesporte.gov.br

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