Cunha nega ter negociado silêncio com Planalto

Ex-deputado presta depoimento à PF em inquérito que investiga Michel Temer com base nas delações da JBS. Segundo advogado, peemedebista negou ter recebido propina do governo federal para evitar delação.


Dono da JBS disse ter repassado 5 milhões de reais a Cunha para comprar seu silêncio na prisão

O deputado cassado e ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) prestou depoimento à Polícia Federal (PF) nesta quarta-feira (14/06), no âmbito do inquérito que investiga o presidente Michel Temer. Preso desde outubro, ele negou ter negociado seu silêncio com o governo federal.

O depoimento, segunda a imprensa brasileira, durou cerca de uma hora e meia. Ao término da sessão, o advogado de defesa, Rodrigo Rios, relatou que foram feitas 47 perguntas ao ex-deputado, e que ele respondeu cerca de 25, se contendo ao conteúdo da delação dos executivos da JBS.

Segundo Rios, metade das questões dizia respeito à ação penal em que Cunha é acusado de ter recebido propina de empresas interessadas em sua influência para facilitar empréstimos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). "Em relação a isso, é mais fácil responder dentro do processo", afirmou o advogado, citado pelo jornal O Globo.

"Quanto aos fatos da JBS, o deputado ressaltou mais uma vez que o silêncio dele nunca esteve à venda, ou seja, ele nunca foi procurado nem pelo presidente Temer nem por interlocutores próximos ao presidente com intuito de comprar seu silêncio", ressaltou Rios a repórteres.

Em delação premiada, o empresário Joesley Batista, da JBS, entregou às autoridades a gravação de uma conversa que teve com Temer no Palácio do Jaburu em março. Nesse diálogo, o presidente teria dado aval para o pagamento de uma mesada a Cunha, em troca de seu silêncio na prisão.

Em depoimento mais tarde, Joesley disse à Procuradoria-Geral da República que pagou um total de 5 milhões de reais ao ex-presidente da Câmara após sua prisão.

Rios afirmou ainda que Cunha negou conhecer a irmã do operador Lúcio Funaro, Roberta Funaro, presa na Operação Patmos em 18 de maio. A PF apreendeu 1,7 milhão de reais em espécie na residência dela, que teriam sido repassados pela JBS para comprar o silêncio de seu irmão. Roberta ainda foi filmada recebendo uma mala com 400 mil reais de um lobista da JBS, Ricardo Saud.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, Cunha disse em depoimento nesta quarta-feira que, se a PF encontrou dinheiro com Roberta, "isso demonstra que os recursos da J&F Investimentos [holding da JBS] ficaram com ela".

O deputado cassado foi condenado a 15 anos de prisão no âmbito da Operação Lava Jato. Ele está detido no Complexo Médico-Penal em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba.

A defesa de Cunha tentou adiar o depoimento desta quarta-feira, argumentando que não teve acesso à íntegra do inquérito que investiga o presidente Temer. Sem resposta do Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-parlamentar resolveu dar "uma declaração geral" sobre as acusações, segundo o advogado Rios.

O inquérito envolvendo Temer foi autorizado em maio pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF, após a homologação das delações premiadas da JBS. A investigação apura se o peemedebista cometeu os crimes de corrupção, obstrução de Justiça e organização criminosa.

 


fonte: DW
EK/abr/ots
Eduardo Cunha (Reuters/U. Marcelino)