Argentina em crise vai às urnas

Argentinos que sofrem com o caos econômico decidem no domingo se reelegem o mal-sucedido Mauricio Macri ou se dão uma chance ao seu adversário peronista, Alberto Fernández, um aliado da ex-presidente Cristina Kirchner.

Nas primárias em agosto, 48% dos cidadãos expressaram sua confiança em Alberto Fernández (dir.), contra 32% em Macri

"Nunca vi meu país sofrer tanto", disse Manuel, 27 anos. Ele é motorista de táxi e afirmou temer por sua sobrevivência desde o início da crise econômica em sua terra natal. "Nos falta tudo. Trabalhamos e trabalhamos e não temos o suficiente para sobreviver."

A Argentina está indo mal das pernas. A taxa de inflação é de 53,5%. Um terço dos argentinos vive abaixo da linha da pobreza. Em setembro, o Congresso do outrora país mais rico da América Latina se viu forçado a declarar emergência alimentar. Até o final de 2019, ao menos 4,5 milhões de pessoas serão oficialmente consideradas indigentes no país.

Para muitos argentinos está claro: o desastre pode ser atribuído ao presidente Mauricio Macri. Quando chegou ao poder em 2015, Macri prometeu aos cidadãos um país sem pobreza, novos empregos estáveis e uma taxa de inflação inferior a 10%. Quatro anos depois, ele preside um país destroçado.

O plano de Macri de liberalizar a política fiscal argentina após anos de protecionismo fracassou tragicamente. Em vez de atrair investidores estrangeiros e estimular a volátil economia por meio de melhores condições de competitividade, ele transformou o país num atrativo para especuladores de divisas e, eventualmente, procurou a ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em junho de 2018, o FMI concedeu à Argentina o maior crédito da história: 50 bilhões de dólares. Pouco depois, a quantia foi acrescentada com outros 6,3 bilhões de dólares. Seguiu-se uma política de austeridade drástica, um revés catastrófico para a classe média – e provavelmente agora também para Macri.

O presidente argentino tem afirmado que seu governo concretizou muitas metas: importantes melhorias em infraestrutura foram iniciadas no país, as relações internacionais foram fortalecidas, além de fomentar a independência no abastecimento básico.

Mas tudo isso soa secundário para pessoas como Manuel, que dirige um táxi por 14 horas por dia e, ainda assim, não consegue pagar sua conta de luz no final do mês. E, como ele, há muitos. E todos se sentem abandonados pelo presidente, um homem que acusam de não entender os problemas da esfacelada classe média e de fazer política apenas para os ricos.

Fernández e Fernández

O candidato da oposição Alberto Fernández promete remediar a situação. O advogado e professor de direito conhece bem a política argentina. Ele foi chefe de gabinete do ex-presidente Néstor Kirchner e, posteriormente, de sua esposa, Cristina Fernández de Kirchner. Mas, após uma curta colaboração em 2008, os caminhos da dupla Fernández se divergiram. Alberto Fernández se tornou um crítico severo do kirchnerismo populista.

Onze anos depois, as diferenças – pelo menos publicamente – parecem superadas. No primeiro semestre de 2019, a polêmica ex-presidente surpreendeu com o anúncio de que não iria concorrer com Macri e que escolheu Fernández como candidato à presidência pela aliança "Frente de Todos". Kirchner está na chapa como vice-presidente.

Uma jogada inteligente, embora incomum. Fernández é mais moderado que Kirchner. Ele mantém distância do clássico populismo de esquerda latino-americano e se apresenta como um peronista pragmático. Isso faz com que para muitos argentinos seja mais fácil votar nele do que na ex-presidente polarizadora, que também está envolvida em vários casos de suspeita de corrupção.

Nas primárias em agosto, 48% dos cidadãos expressaram sua confiança na dupla Fernández-Kirchner. Macri e seu candidato a vice-presidente Miguel Ángel Pichetto receberam o aval de apenas 32%. E mesmo que Macri esteja desde esse resultado preocupante em turnê incessante pelo país, apertando mãos e prometendo tempos melhores, é bastante provável que ele esteja com os dias contados na Casa Rosada.

Quanto tempo dura a coalizão?

É incerto o que se pode esperar do país, tamanha são as preocupações com uma nova briga entre Fernández e Kirchner. "Não estamos nos perguntando se a coalizão 'Frente de Todos' vai romper, mas quando", disse Jimena Blanco, gerente para a América da consultoria em gestão de riscos Maplecroft. "Dependendo de quão moderado Fernández se mostre como presidente, ele poderá buscar a separação da ala mais radical do kirchnerismo e governar com o apoio dos peronistas mais centristas."

Fato é que o futuro presidente da Argentina terá pela frente uma missão das mais complicadas. "Primeiramente precisam ser feitos acordos realistas de reembolso com os credores, especialmente o FMI", afirmou Blanco. "Só então o governo poderá combater a inflação e tentar aumentar a competitividade e a produtividade no país."

Os argentinos decidem no domingo quem deve ajudá-los sair da crise. Caso nenhum candidato superar a marca dos 45% dos votos, o novo governo federal será definido em segundo turno, agendado para 24 de novembro.

 

 


fonte: DW

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