Os efeitos do coronavírus sobre o mercado de trabalho

Embora ainda não seja possível determinar real extensão dos danos econômicos causados pela pandemia de covid-19, é certo que a crise custará milhões de empregos.

Alguns setores, porém, podem escapar com perdas mínimas.

Veneza sem turistas, em foto do início de março

A paralisação da economia gerada pela pandemia do novo coronavírus pode erradicar quase 25 milhões de empregos em todo o mundo, afirma a Organização Internacional do Trabalho (OIT). A previsão ultrapassa os efeitos da crise financeira global de 2008-09, que aumentou o desemprego global em 22 milhões de pessoas.

No entanto, de acordo com o órgão da ONU, esse número pode baixar para 5,3 milhões caso as consequências econômicas do vírus forem contidas. A OIT também sinalizou um aumento no subemprego e grandes perdas de renda para os trabalhadores, em até 3,4 trilhões de dólares, já que o impacto econômico da epidemia do novo coronavírus deve causar reduções de jornada de trabalho e salários.

"É realmente uma crise global, não apenas em termos de alcance, mas também em termos de impacto econômico. Todos os setores serão afetados", afirmou Dorothea Schmidt-Klau, da OIT. "Os governos precisam agir em larga escala e de maneira coordenada. Portanto, é necessária alguma coerência política em nível nacional, mas também global."

Mesmo se os líderes globais discutirem ações coordenadas e, enquanto isso, tomarem medidas fiscais individuais, empresas de todo o mundo – que já estão sofrendo com as guerras tarifárias e a desaceleração da econômica global do ano passado – já começaram a demitir funcionários.

Setor de viagens e turismo é o mais atingido

As companhias aéreas são as que mais estão sentindo os efeitos da pandemia de covid-19, já que as proibições globais de viagens para conter o vírus resultaram no cancelamento de milhares de voos. A Air Canada já anunciou a demissão de 5 mil funcionários. A KLM demitiu 2 mil. Outras empresas deram licença a seus funcionários.

Especialistas alertam para mais cortes de empregos, especialmente no fragmentado mercado europeu, que há muito sofre com excesso de capacidade e guerra de preços. As companhias aéreas menores podem ter dificuldade para sobreviver à pandemia, como já aconteceu com a britânica Flybe, que no início de março entrou em insolvência.

A indústria da hotelaria também luta para lidar com as medidas de contenção. A Marriot, maior empresa hoteleira do mundo, e outras grandes redes de hotéis, como Hilton e Hyatt, estão concedendo licenças ou encerrando o contrato de dezenas de milhares de funcionários. Na Europa, o Scandic, maior grupo hoteleiro da Suécia, divulgou que emitirá avisos de rescisão para duas mil pessoas.

"É apenas o começo, veremos grandes indústrias fechando simplesmente porque não conseguem as peças necessárias na cadeia global de suprimentos para produzir o que deveriam produzir. Poderemos ver grandes empresas fechando", lamenta Schmidt-Klau. "O turismo pode ser o primeiro a ser fortemente atingido, mas certamente não será o único."

Situação preocupante nos EUA

O mercado de trabalho dos EUA, que já é o país mais afetado pela pandemia em número de casos confirmados, já mostra sinais ameaçadores. Foram 281 mil pedidos de auxílio-desemprego na segunda semana de março - um aumento de 33% em relação à semana anterior. Os pedidos de auxílio-desemprego aumentaram em dez vezes e atingiram um recorde de 3,3 milhões na semana passada.

Em entrevista ao portal de notícias Bloomberg, o presidente do Banco Central de St. Louis, James Bullard, disse que bloqueios para conter o vírus podem elevar a taxa de desemprego nos Estados Unidos para 30% no segundo trimestre, com uma queda sem precedentes de 50% do PIB.

De acordo com um relatório da Moody's Analytics, 27 milhões de pessoas, ou cerca de 18% do total de empregos nos EUA, trabalham para indústrias "cujas receitas serão severamente reduzidas e estão vulneráveis ​​a demissões, já que as empresas, principalmente as pequenas, vão gastar suas reservas e linhas de crédito". Os serviços de lazer e hospedagem, transporte e prestação de serviços estariam entre os setores de maior risco, e os setores públicos e de saúde entre os menos vulneráveis. Ainda de acordo com o relatório, o número de contratações já diminuiu a níveis vistos durante o auge da crise financeira de 2008-09.

Os baixos preços do petróleo, que já vinham caindo devido a uma diminuição da demanda causada pelos lockdowns e a uma guerra de preços entre a Arábia Saudita e a Rússia, podem levar a mais perdas de empregos na indústria do xisto dos EUA. Vários produtores de petróleo de xisto faliram nos últimos anos, pois não conseguiam lucrar em meio aos baixos preços do petróleo.

Desemprego na Europa

Embora haja divergências entre os economistas quanto à extensão do dano que o coronavírus causará à economia, existe um amplo consenso de que os bloqueios e outras medidas de emergência nas principais economias europeias, como Alemanha, Itália, França e Espanha, arrastarão o continente para uma recessão.

Especialistas afirmam que o colapso pode eliminar milhões de empregos na Europa, mas o impacto em cada país dependerá de como cada governo reagirá à crise.

"Na Alemanha, por exemplo, o governo subsidiará a redução da jornada de trabalho e, portanto, o aumento do desemprego será menor do que em outros países", disse Angel Dalavera, da Oxford Economics. "Em países como a Espanha, que tem um mercado de trabalho mais reativo, você vê um grande impacto no setor de empregos quando a economia desacelera de forma acentuada".

Na Alemanha, o programa de trabalho de curta duração (Kurzarbeit, em alemão), lançado para minimizar as demissões durante a crise financeira de 2008-09, permite que as empresas que enfrentam dificuldades econômicas reduzam o horário de trabalho de seus funcionários em vez de demiti-los. Assim, o governo alemão concede aos trabalhadores um subsídio para compensar parcialmente a diminuição no salário.

De acordo com o instituto de pesquisas econômicas Ifo, a pandemia poderá eliminar 1,4 milhão de vagas em período integral e colocar mais de 6 milhões em trabalho de curta duração na Alemanha. "A crise está causando amplas distorções no mercado de trabalho, piores do que no auge da crise financeira", disse o presidente da Ifo, Clemens Fuest.

De acordo com economistas do Deutsche Bank, a taxa de desemprego na área do euro pode subir para 13% ou até 19%, bem mais do que a alta de 12% observada após a crise financeira global de 2008.

Resistir à tempestade

Especialistas afirmam que trabalhadores de setores como TI, saúde, telecomunicações, comércio eletrônico e varejo de alimentos têm mais chances de manterem seus empregos.

O jornal Financial Times informou na semana passada que empresas de tecnologia continuavam contratando a todo vapor para se prepararem para um mundo que se desloca cada vez mais para o digital – tendência reforçada pela epidemia do novo coronavírus. Na Califórnia, empresas de tecnologia abriram 15.852 vagas de empregos na segunda semana de março – número um pouco abaixo do da semana anterior, mas quase três vezes acima do número de vagas abertas um ano atrás. O Financial Times cita dados da recrutadora americana ZipRecruiter.

No entanto, especialistas alertam que, se a interrupção causada pelo vírus for além de um período de 6 a 12 meses, até mesmo esses setores poderão ser prejudicados. "No fim das contas, o setor de TI é um setor de serviços e, se não houver serviços a serem prestados, é claro que não haverá manutenção de TI", disse Schmidt-Klau. "No que diz respeito à produção de equipamentos de TI, é um setor muito globalizado. Portanto, novamente, se as cadeias de valor e de fornecimento forem interrompidas, esse setor sofrerá tanto quanto os outros."

 

 

 


fonte: DW

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