Hong Kong inicia testes em massa para covid-19 em meio a desconfiança

Enquanto governo do território chinês semiautônomo garante confiabilidade e espera que 5 milhões de pessoas participem da testagem, ativistas expressam temor de que Pequim esteja coletando DNA de habitantes de Hong Kong.

Testagem deve identificar portadores assintomáticos do coronavírus que possam estar transmitindo a doença

Hong Kong realizou testes para covid-19 em milhares de pessoas nesta terça-feira (1º/09), dando início a uma triagem em massa da população. A testagem, executada por profissionais de saúde enviados por Pequim, se tornou a mais recente discórdia no território chinês semiautônomo.

Milhares de voluntários formaram filas em alguns dos mais de cem centros de testes. No entanto, muitos residentes não confiam nos recursos e na equipe fornecidos pelo governo chinês – alguns expressaram temor de que Pequim esteja coletando DNA de habitantes de Hong Kong.

O governo de Hong Kong rejeitou tais preocupações, e a chefe do governo local, Carrie Lam, incentivou a população a avaliar o programa de testes em massa de uma maneira justa e objetiva e apelou a críticos para que parassem de desencorajar as pessoas de serem testadas, já que a participação é crucial para o sucesso do programa.

A gerente de vendas Priscilla Pun relatou que decidiu ser testada para desencargo de consciência. "Não vejo razão para não fazer isso, e, dessa forma, minha família no Canadá sabe que estou segura", disse Pun, que realizou o exame num centro no bairro de Quarry Bay.

Assim como outros moradores, Giselle Ming afirmou que decidiu participar para apoiar a iniciativa do governo de Hong Kong, embora não estivesse preocupada com a possibilidade de ser portadora do coronavírus. "Nesta situação ruim do coronavírus, espero poder fazer algo para ajudar a sociedade", disse Ming.

Em sua entrevista coletiva semanal, Lam comunicou que mais de 10 mil pessoas, incluindo a maioria dos ministros do governo de Hong Kong, foram testadas na manhã desta terça-feira.

"Este programa de teste comunitário universal em grande escala é benéfico para combater a epidemia e benéfico para a nossa sociedade. Isso também ajudará Hong Kong a sair ileso da pandemia e é propício para a retomada das atividades diárias", disse Lam.

Mais de 500 mil pessoas na cidade de 7,5 milhões de habitantes se inscreveram com antecedência no programa, que terá duração de pelo menos uma semana. O objetivo é identificar portadores assintomáticos do coronavírus que possam estar transmitindo a doença. A expectativa do governo é de que 5 milhões de pessoas participem do programa, que poderá ser estendido para duas semanas, dependendo da demanda.

O pior surto do coronavírus em Hong Kong, registrado no início de julho, foi atribuído em parte à isenção da exigência de quarentena para funcionários de companhias aéreas, motoristas de caminhão vindos da China continental e marinheiros de navios cargueiros. Em seu pico, Hong Kong registrou mais de 100 casos de transmissão local por dia, após passar semanas em junho sem nenhum caso de infecção.

O ritmo de propagação da covid-19 diminuiu novamente em Hong Kong, com as autoridades relatando apenas nove novos casos nesta segunda-feira – a primeira vez em duas semanas que as infecções diárias ficaram abaixo de dois dígitos. No entanto, o governo local e alguns especialistas afirmam que os testes em massa podem ajudar a detectar portadores assintomáticos para frear ainda mais a disseminação do coronavírus.

O professor especialista em medicina respiratória David Hui disse que, embora as infecções tenham diminuído, a proporção de casos com fontes de infecção não rastreáveis permanece entre 30% e 40%.

"Isso significa que deve haver alguma transmissão silenciosa em andamento, e, portanto, os testes comunitários são uma ferramenta pra a detecção desses transmissores silenciosos", disse Hui, que é também conselheiro de saúde pública do governo local. "Tomara que possamos identificar essas pessoas e isolá-las por um período de tempo para ajudar a quebrar a cadeia de transmissão na comunidade."

O programa é mais eficaz se a maioria da população participar, segundo Hui. "Se apenas 1 milhão ou 2 milhões de pessoas participarem não seremos capazes de atingir esse objetivo", afirmou.

Outro especialista em medicina respiratória, Leung Chi-chiu, afirmou que o programa de testes em massa pode não ser o método mais econômico, pois não é fácil detectar a doença em seu desenvolvimento inicial, especialmente se uma pessoa não apresenta sintomas ou não teve exposição recente a um paciente infectado. Mesmo que os testes em massa possam identificar pessoas infectadas, elas podem já ter passado do estágio infeccioso.

Leung afirmou que os testes em larga escala não serão capazes de substituir os métodos tradicionais de distanciamento social e medidas de rastreamento de contato, e devem ser usados apenas como uma medida complementar.

Alguns ativistas pró-democracia de Hong Kong se opuseram publicamente ao programa. O ativista Joshua Wong convocou um boicote e citou relatos da imprensa sueca de que alguns kits de teste usados apresentavam altas taxas de falsos positivos.

Lam, por outro lado, garantiu que, embora resultados falsos positivos possam ocorrer, os testes usados no programa de Hong Kong foram aprovados nos procedimentos de garantia de qualidade.

 

 

 

 

 


fonte: DW
PV/ap/ots

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